As Duas Saídas Que Jesus Fechou
"E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis."
— Lucas 13:2-5
---
Introdução
Chegaram a Jesus com uma notícia terrível. Pilatos tinha mandado matar um grupo de galileus enquanto estes ofereciam sacrifícios, ficando o sangue deles, como diz o texto, "misturado com os seus sacrifícios" (v. 1). Violência política dentro do templo — hoje diríamos: um atentado durante um culto de domingo.
Não sabemos ao certo o que queriam d'Ele. Sabemos o que Ele ouviu por baixo do relato, porque foi a isso que respondeu: o que é que aquela gente tinha feito para acabar assim?
E a resposta vem em duas metades que não se separam. Primeiro: "Não, vos digo." Não foram mais pecadores do que ninguém. Depois, no mesmo fôlego: "antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis."
Em duas frases, Jesus fechou as duas portas por onde fugimos quase sempre de uma tragédia. A porta que diz eles mereceram, e a porta que diz isto não tem nada a ver comigo. Fechou as duas e deixou só uma aberta.
---
1. "Mais Pecadores?" — A Conta Que Jesus Recusou
A pergunta trazia uma conta embutida: sofrimento a mais, pecado a mais. É uma aritmética antiga e muito humana, e Jesus desmonta-a em três palavras: "Não, vos digo."
Repara, no entanto, no que Ele diz exatamente. Não diz "aqueles galileus não eram pecadores". Diz que não foram mais pecadores do que os outros galileus. Não absolveu os mortos — recusou a classificação. E a recusa corta para os dois lados: se os que morreram não eram piores, os que ficaram vivos não eram melhores. Jesus nivelou o chão onde estavam todos.
E acrescenta uma segunda catástrofe, que ninguém Lhe tinha trazido: "aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé" (v. 4). Repara na diferença entre os dois casos. No primeiro há um culpado com nome: Pilatos. No segundo não há ninguém — caiu uma construção. Jesus põe lado a lado a maldade dos homens e o acidente sem autor, e dá às duas a mesma resposta. A equação falha quando há um culpado e falha quando não há nenhum.
A Escritura ensina, de facto, que "tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). Mas esse princípio serve para eu examinar a minha vida, não para explicar aquele sangue nem aquela torre.
Aplicação prática: se carregas a ideia de que o que te aconteceu é a fatura de algo que fizeste, ouve as três palavras: "Não, vos digo." E se é a dor de outra pessoa que estás a tentar explicar, tira a calculadora da mão.
---
2. "Antes" — A Segunda Saída, Fechada no Mesmo Fôlego
Se Jesus tivesse parado em "Não, vos digo", teríamos um Mestre confortável e metade de um texto. Mas há ali uma palavra que não nos deixa sair: "antes."
Aquela multidão tinha a segunda saída já preparada, e é a nossa. Funciona assim: se os mortos não eram piores do que eu, o assunto está encerrado e eu posso ir para casa. Chamamos-lhe realismo. É, na verdade, alívio — o alívio de quem fica do lado de fora da notícia.
Jesus fecha essa porta com a mesma régua que usou na primeira. O nivelamento que te defende é o nivelamento que te expõe: se eles não eram piores, tu não és melhor, e o chão é o mesmo para todos. E não é uma frase dita ao calor do momento — Ele repete-a palavra por palavra no versículo 5, depois do segundo caso, para que ninguém fique a pensar que a primeira resposta era só a respeito dos galileus.
Repara no que isto faz à conversa. Entraram a comentar a catástrofe de outros e saíram com o seu próprio arrependimento em cima da mesa. Levaram ao Mestre um caso de estudo e descobriram que o caso eram eles.
Honestidade com o texto: "perecer de igual modo" não significa que cada ouvinte iria morrer debaixo de uma torre. Jesus fala de um perecer mais largo do que o acidente — e, de facto, numa geração a própria Jerusalém caiu. Até onde eu estendo o aviso à tua vida e à minha é aplicação minha; o aviso é d'Ele, e é sério.
Aplicação prática: da próxima vez que te apanhares a explicar a tragédia de alguém, para a meio da frase. A notícia que estás a comentar não te foi dada para arquivares. Foi dada para te vires nela.
---
3. A Pergunta Que Ele Põe no Lugar da Nossa
Jesus não responde à pergunta que Lhe fizeram. Troca-a.
E presta atenção ao que Ele deliberadamente não faz: não explica. Não diz porque é que Pilatos foi permitido, nem porque é que a torre caiu àquela hora e não uma hora antes. Deixa o porquê de pé e muda a pergunta — de "de quem é a culpa disto?" para "o que é que isto me está a pedir?"
Parece-nos dureza e é misericórdia. Uma explicação deixava-nos onde estávamos: espetadores bem informados. A pergunta nova põe-nos de pé.
E a resposta que Ele próprio dá é uma palavra: arrepender-se. Não "ter mais cuidado", não "compreender", não "conformar-se". Virar-se. Mudar de direção enquanto há direção para mudar. Pouco antes, Jesus tinha dito à mesma multidão que sabiam ler o céu e prever a chuva, mas não sabiam ler "este tempo" (Lucas 12:54-56). É a mesma queixa: bons a analisar o que acontece, maus a ouvir o que o momento está a pedir.
E Ele não para aqui. A seguir conta a parábola da figueira, em que o dono quer cortá-la e o vinhateiro pede "Senhor, deixa-a este ano, até que eu a escave e a esterque" (v. 8). Leio as duas coisas juntas porque foi Jesus que as juntou. O tempo que ainda tens não é prova de que foste melhor do que os dezoito. É um ano pedido por ti. "A benignidade de Deus te leva ao arrependimento" (Romanos 2:4) — e é benignidade, não distração.
Honestidade com o texto: a figueira fala, em primeiro lugar, de Israel e da oportunidade que Jerusalém ainda tinha. Transportar o ano extra para o teu calendário é extensão minha — faço-a porque Jesus pôs os dois parágrafos lado a lado, mas o texto não te promete nada sobre quanto tempo tens.
Aplicação prática: não esperes por um desastre maior para fazeres esta viragem. O vinhateiro pediu um ano, não uma vida inteira. Se há algo que já sabes que Deus te está a pedir, hoje ainda estás dentro do prazo.
---
Conclusão
Duas catástrofes. Uma multidão à espera de que Jesus escolhesse um lado. Uma só resposta, que não lhe deu nenhum dos dois.
A primeira metade — "Não, vos digo" — é para quem está a ser esmagado por um veredicto que ninguém tinha autoridade para dar. Levanta a cabeça: a tua dor não é a tua sentença.
A segunda metade — "antes, se não vos arrependerdes" — é para quem está a salvo, e sabe que está, e por isso não vê razão nenhuma para se mover.
A maior parte de nós precisa das duas no mesmo dia: que nos tirem da mão a conta que estávamos a fazer sobre a vida dos outros, e que nos devolvam a única pergunta que vale a pena quando o mundo cai — Senhor, o que é que isto me está a pedir?
Jesus fechou as duas saídas fáceis. Deixou aberta a porta que dá para Ele.
---
Oração Final
Senhor Jesus, tira-me da cadeira do espetador. Guarda-me de ler o sofrimento dos outros como castigo e de ler o meu como sentença; e guarda-me também de pensar que, por estar de pé, não tenho nada para mudar. Onde eu tenho pedido explicações, dá-me obediência. Mostra-me hoje a direção em que me tenho de virar, e dá-me coragem para o fazer enquanto há tempo. Obrigado porque o tempo que ainda tenho é tempo pedido pela Tua bondade. Em nome de Jesus, Amém.
---